Gênesis 1
📜 Texto-base
1 No princípio, criou Deus os céus e a terra.
2 A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.
3 Disse Deus: Haja luz; e houve luz.
4 Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas.
5 Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.
6 E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e haja separação entre águas e águas.
7 Fez, pois, Deus o firmamento e fez separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as que estavam por cima do firmamento. E assim se fez.
8 Chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia.
9 Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez.
10 À porção seca chamou Deus Terra e ao ajuntamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era bom.
11 E disse: Produza a terra relva, ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez.
12 A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, cuja semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.
13 Houve tarde e manhã, o terceiro dia.
14 Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para estações, e para dias e anos.
15 E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez.
16 Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas.
17 E os colocou no firmamento dos céus para alumiar a terra,
18 para governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom.
19 Houve tarde e manhã, o quarto dia.
20 Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, no firmamento dos céus.
21 Criou, pois, Deus os grandes monstros marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom.
22 E Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e na terra se multipliquem as aves.
23 Houve tarde e manhã, o quinto dia.
24 Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez.
25 Fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, segundo a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.
26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.
27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
28 E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.
29 Disse mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será por alimento.
30 E a todo animal da terra, e a toda ave dos céus, e a todo réptil da terra, em que há fôlego de vida, toda a erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez.
31 Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.
🎯 Visão Geral do Capítulo
O livro de Gênesis, e particularmente seu primeiro capítulo, serve como o alicerce fundamental para toda a narrativa bíblica. Ele não é meramente um registro histórico ou científico, mas uma revelação divina que introduz Deus como o Criador soberano e todo-poderoso do universo. Gênesis 1 estabelece a doutrina da criação ex nihilo, ou seja, Deus criando do nada, e apresenta uma cosmogonia que, embora possua paralelos com outras culturas antigas do Oriente Próximo, se distingue por sua ênfase no monoteísmo e no caráter benevolente de Deus. Este capítulo é crucial para a compreensão da natureza de Deus, da humanidade e do propósito da criação.
Os temas principais de Gênesis 1 incluem a soberania de Deus sobre o caos, a ordem e a bondade da criação, a distinção entre Criador e criatura, e a singularidade da criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus. A narrativa é estruturada em dias de criação, culminando no sétimo dia de descanso, que prefigura o conceito de sábado. Este capítulo não apenas narra o início do cosmos, mas também estabelece princípios teológicos profundos que ressoam por toda a Escritura, como a dignidade da vida humana, a responsabilidade do homem sobre a criação e a natureza pactual de Deus com seu universo.
📖 Contexto Histórico e Cultural
A narrativa de Gênesis 1 foi escrita em um contexto histórico e cultural específico, provavelmente por Moisés, para o povo de Israel que estava emergindo da escravidão no Egito. Este povo, imerso em um ambiente politeísta e monolátrico, precisava de uma compreensão clara da identidade e do poder de seu Deus, Javé. A cosmogonia de Gênesis, portanto, funciona como uma exposição corretiva às narrativas de criação pagãs da época, que frequentemente retratavam deuses em conflito e uma criação resultante de violência ou acasos. Em contraste, Gênesis 1 apresenta um Deus único, transcendente e imanente, que cria de forma ordenada e intencional.
As práticas culturais do Antigo Oriente Próximo frequentemente envolviam mitos de criação que explicavam a origem do mundo através de batalhas entre divindades ou a partir de materiais preexistentes. Por exemplo, o Enuma Elish babilônico descreve a criação do mundo a partir do corpo de uma deusa derrotada. Gênesis 1, ao invés disso, destaca a facilidade e a autoridade da criação divina através da palavra (
divina. A ausência de conflito e a bondade intrínseca de cada estágio da criação são pontos cruciais que diferenciam a narrativa bíblica das cosmogonias pagãs [1].
A geografia e a arqueologia relevantes para Gênesis 1, embora não diretamente mencionadas no texto, fornecem um pano de fundo para a compreensão do mundo antigo. A Mesopotâmia, berço de civilizações como a Suméria e a Babilônia, era rica em mitos de criação que os israelitas teriam conhecido. A familiaridade com essas narrativas pagãs teria permitido que o público original de Gênesis compreendesse a radicalidade da mensagem monoteísta e criacionista apresentada por Moisés. A arqueologia tem revelado textos antigos que descrevem inundações universais e a criação do homem a partir do barro, o que, embora com diferenças significativas, mostra a universalidade de certas preocupações humanas sobre as origens.
As conexões com o Antigo Oriente Próximo são vitais para uma exegese adequada de Gênesis 1. O texto não foi escrito em um vácuo cultural, mas dialoga com as ideias prevalecentes da época. Por exemplo, a menção de um “abismo” (Gn 1:2) pode evocar a Tiamat do Enuma Elish, mas Gênesis subverte essa imagem ao apresentar o “abismo” como uma entidade passiva sobre a qual o Espírito de Deus paira, aguardando a ordem criativa. Da mesma forma, a criação do sol, da lua e das estrelas no quarto dia, após a criação da luz, desmistifica as divindades celestiais adoradas em muitas culturas pagãs, relegando-as ao status de meras luminárias criadas por Deus para propósitos específicos [2]. Essa desmitologização é um aspecto central da mensagem teológica de Gênesis 1, afirmando a supremacia de Javé sobre todas as outras supostas divindades.
🔍 Exposição do Texto
Gênesis 1 inicia com a declaração majestosa: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1). Esta frase serve como um título para todo o capítulo, afirmando a autoria divina da criação. A palavra hebraica para “criou”, bara (ברא), é significativa, pois é usada exclusivamente para a atividade criativa de Deus, implicando uma criação sem material preexistente ou, pelo menos, uma ação que transcende a capacidade humana de moldar ou formar. A terra é descrita como “sem forma e vazia” (tohu va-bohu), e a escuridão cobria a face do abismo, enquanto o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1:2). Esta imagem de um caos primordial não sugere uma luta divina, mas um estado de desordem que Deus está prestes a transformar em ordem e vida.
Os dias da criação são apresentados em uma estrutura literária que revela a intencionalidade e a ordem divina. Os três primeiros dias estabelecem os domínios: luz/escuridão, firmamento/águas, terra seca/vegetação. Os três dias seguintes preenchem esses domínios com seus respectivos habitantes: luminares para governar o dia e a noite, aves e peixes para as águas e o firmamento, e animais terrestres e o homem para a terra seca. Essa estrutura paralela enfatiza a organização e o propósito da criação. A repetição da frase “E viu Deus que era bom” após cada ato criativo, culminando em “muito bom” após a criação do homem, sublinha a perfeição e a bondade intrínseca da obra de Deus [3].
A exegese detalhada de cada dia revela a progressão da criação. No primeiro dia, Deus cria a luz pela sua palavra, separando-a das trevas (Gn 1:3-5). A luz não é o sol, que só aparece no quarto dia, sugerindo que Deus é a fonte primária de luz e vida. No segundo dia, Deus cria o firmamento, separando as águas acima das águas abaixo (Gn 1:6-8). O terceiro dia vê a reunião das águas para que a terra seca apareça, e a terra produz vegetação (Gn 1:9-13). A criação da vegetação antes do sol no quarto dia reforça a ideia de que a vida não depende exclusivamente dos luminares celestiais, mas da palavra criativa de Deus.
O quarto dia (Gn 1:14-19) marca a criação dos luminares para governar o dia e a noite, para sinais, estações, dias e anos. Eles são designados para dar luz sobre a terra, e não são adorados como divindades, mas são servos de Deus. No quinto dia (Gn 1:20-23), as águas e o firmamento são preenchidos com criaturas vivas: peixes e aves. Deus os abençoa e lhes diz para serem frutíferos e se multiplicarem. O sexto dia (Gn 1:24-31) é o clímax da criação, com a produção de animais terrestres e, finalmente, a criação do ser humano. A criação do homem é única, pois Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26). A pluralidade em “Façamos” tem sido objeto de muita discussão teológica, apontando para a natureza plural de Deus (Trindade) ou para um conselho divino. A imagem e semelhança de Deus conferem ao homem dignidade, racionalidade, moralidade e a capacidade de se relacionar com seu Criador, além de domínio sobre a criação.
A teologia do texto de Gênesis 1 é rica e multifacetada. Ela estabelece a fundação para a compreensão da soberania de Deus, sua transcendência e imanência, e a bondade de sua criação. A criação do homem à imagem de Deus é um tema central, que confere à humanidade um status especial e uma responsabilidade única. O mandato cultural de “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1:28) não é uma licença para exploração irresponsável, mas um chamado à mordomia e ao cuidado da criação. A instituição do sábado no sétimo dia (Gn 2:1-3), embora não explicitamente em Gênesis 1, é o resultado lógico da obra criativa de Deus, um tempo de descanso e contemplação da perfeição de sua obra. Gênesis 1, portanto, não é apenas um relato de como o mundo começou, mas uma profunda declaração teológica sobre quem Deus é e qual é o propósito da existência.
💭 As Três Perguntas
1️⃣ Onde estava a graça?
A graça de Deus em Gênesis 1 é manifesta de diversas formas, mesmo antes da queda e da necessidade de redenção no sentido estrito. Primeiramente, a própria existência da criação é um ato de graça. Deus não precisava criar; Ele o fez por sua livre e soberana vontade, por amor e para manifestar sua glória. A criação de um universo ordenado, belo e funcional, capaz de sustentar a vida, é uma expressão da benevolência divina. A provisão de luz, terra seca, vegetação, luminares e criaturas vivas, tudo o que é necessário para a existência e o florescimento da vida, demonstra a generosidade e o cuidado de Deus para com sua criação [4].
Além disso, a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus é um ato de graça incomparável. Dentre todas as criaturas, apenas o homem recebe essa distinção, que lhe confere dignidade, valor intrínseco e a capacidade de se relacionar com seu Criador. Essa imagem divina não é algo que o homem mereceu, mas um dom gratuito de Deus. A bênção de Deus para o homem e a mulher – “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28) – é uma expressão de sua graça, concedendo-lhes propósito, autoridade e a capacidade de participar da obra criativa de Deus na mordomia da terra.
A bondade intrínseca de toda a criação, reiterada pela frase “E viu Deus que era bom” e, finalmente, “muito bom” (Gn 1:31), é um testemunho da graça divina. Deus não criou um mundo imperfeito ou deficiente, mas um ambiente perfeito e harmonioso para a vida. Essa perfeição original, antes da entrada do pecado, é um reflexo da natureza graciosa de Deus, que deseja o bem-estar e a felicidade de suas criaturas. Mesmo em um mundo sem pecado, a dependência da criação em relação ao seu Criador para a existência e sustentação é uma manifestação contínua da graça divina.
2️⃣ Como era a adoração?
Em Gênesis 1, a adoração não é apresentada de forma explícita através de rituais ou cânticos, mas é inerente à própria estrutura da criação e à resposta esperada da humanidade. A adoração primordial em Gênesis 1 é a reconhecimento da soberania e majestade de Deus como Criador. A simples existência de um universo ordenado e belo, que aponta para um Designer inteligente e poderoso, convida à admiração e ao louvor. A repetição da frase “E disse Deus” seguida da realização de sua palavra demonstra seu poder absoluto e sua autoridade, que naturalmente inspiram reverência e adoração [5].
A resposta humana a Deus, mesmo antes da queda, seria uma vida de obediência e mordomia. O mandato cultural de “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1:28) pode ser entendido como um ato de adoração, onde a humanidade, agindo como vice-regentes de Deus, administra a criação de acordo com a vontade do Criador. Cuidar da terra, cultivá-la e desfrutar de seus frutos em gratidão seriam formas de adoração. A própria existência do homem à imagem de Deus implica uma capacidade inata de se relacionar com Ele, de refletir seu caráter e de glorificá-lo através de sua vida e ações.
Além disso, o padrão de trabalho e descanso estabelecido nos dias da criação, culminando no sétimo dia de descanso de Deus (Gn 2:1-3), prefigura a importância do sábado como um dia dedicado à adoração e à lembrança da obra criativa de Deus. Embora o conceito de sábado seja formalizado posteriormente na lei mosaica, suas raízes estão na própria estrutura da criação. O descanso de Deus não implica exaustão, mas a satisfação em sua obra completa e perfeita, convidando a humanidade a participar desse descanso e a contemplar a glória do Criador. Assim, a adoração em Gênesis 1 é fundamentalmente uma resposta de admiração, obediência e gratidão ao Deus Criador.
3️⃣ O que foi revelado sobre o Reino de Deus?
Embora o termo “Reino de Deus” não seja explicitamente usado em Gênesis 1, os fundamentos para sua compreensão são estabelecidos de forma clara. O Reino de Deus é, em sua essência, o domínio soberano de Deus sobre toda a criação. Gênesis 1 revela um Deus que é o Rei supremo, cujo governo é absoluto e incontestável. Ele cria pela sua palavra, e tudo o que Ele ordena se cumpre. A ordem e a estrutura do universo são um testemunho de seu reinado. A separação da luz das trevas, das águas do firmamento, e a organização da terra e dos céus demonstram que Deus é um Deus de ordem e que seu Reino é caracterizado por essa ordem divina [6].
A criação do homem à imagem de Deus e o mandato para “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1:28) revelam que a humanidade foi criada para ser parte integrante do Reino de Deus, atuando como seus representantes na terra. O homem e a mulher são coroados com glória e honra, recebendo autoridade para governar a criação sob a soberania de Deus. Isso significa que o Reino de Deus não é apenas um domínio celestial, mas também um domínio terrestre, onde a vontade de Deus é expressa através de seus vice-regentes humanos. A terra, em sua perfeição original, era o cenário para o florescimento desse Reino, onde a harmonia entre Deus, a humanidade e a criação era plena.
O Reino de Deus em Gênesis 1 é um Reino de bênção e vida. Deus abençoa suas criaturas, especialmente a humanidade, e provê abundantemente para suas necessidades. A ausência de pecado e morte no estado original da criação aponta para um Reino onde a justiça e a paz prevalecem. A visão de um mundo onde tudo é “muito bom” (Gn 1:31) é a imagem ideal do Reino de Deus, um lugar onde a vontade de Deus é perfeitamente realizada e onde suas criaturas desfrutam de sua presença e provisão. Embora o pecado tenha subsequentemente distorcido essa realidade, Gênesis 1 nos oferece um vislumbre do propósito original de Deus para seu Reino e serve como um modelo para a restauração futura desse Reino através de Cristo.
🧠 Reflexão Teológica
Gênesis 1 é a pedra angular da teologia sistemática, fornecendo a base para doutrinas cruciais como a teologia própria (estudo de Deus), a antropologia teológica (estudo do homem) e a hamartiologia (estudo do pecado). Ele revela um Deus transcendente, que existe antes e além da criação, mas também imanente, que está ativamente envolvido em sua obra. A doutrina da Trindade, embora não explicitamente formulada, é prefigurada na pluralidade de “Façamos o homem à nossa imagem” (Gn 1:26) e na menção do Espírito de Deus pairando sobre as águas (Gn 1:2). A soberania de Deus é enfatizada em cada ato criativo, demonstrando seu poder absoluto e sua autoridade sobre tudo o que existe. A bondade de Deus é evidente na perfeição de sua criação, que é declarada “muito boa” [7].
Em termos de Cristologia, Gênesis 1 aponta para Cristo de várias maneiras. Primeiramente, o Novo Testamento identifica Jesus como o agente da criação. João 1:3 declara: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” Colossenses 1:16 afirma que “nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele.” Assim, Cristo é o Verbo criador, a sabedoria de Deus através da qual o universo veio à existência. A ordem e a beleza da criação são um testemunho do poder e da glória de Cristo. Além disso, a criação do homem à imagem de Deus prefigura Cristo como o “segundo Adão” e a imagem perfeita de Deus (Colossenses 1:15), que viria para restaurar a imagem divina distorcida pelo pecado.
O plano de redenção, embora não plenamente desenvolvido em Gênesis 1, tem suas raízes aqui. A criação de um mundo perfeito e a subsequente queda da humanidade (narrada em Gênesis 3) estabelecem a necessidade de redenção. Gênesis 1, ao apresentar a bondade original da criação e a dignidade do homem, fornece o contexto para entender a profundidade da tragédia do pecado e a magnitude da obra redentora de Deus. A promessa de um Redentor, que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3:15), é a resposta de Deus à queda, e essa promessa é ainda mais significativa quando se compreende a perfeição do mundo que foi perdido. A redenção, portanto, é a restauração do propósito original de Deus para a criação e para a humanidade, um retorno à harmonia e à glória prefiguradas em Gênesis 1.
Temas teológicos maiores que perpassam Gênesis 1 incluem a relação entre fé e ciência, a mordomia da criação e a dignidade da vida humana. Gênesis 1 não é um manual científico, mas uma declaração teológica sobre a origem e o propósito do universo. Ele nos convida a crer em um Deus que é o Criador de tudo, e essa fé não está em oposição à verdadeira ciência, mas a transcende. A responsabilidade de cuidar da criação, derivada do mandato cultural, é um tema urgente em nosso tempo, chamando os cristãos a serem bons mordomos do planeta. A dignidade da vida humana, baseada na imagem de Deus, é o fundamento para a ética e a moralidade, afirmando o valor intrínseco de cada indivíduo desde a concepção até a morte natural.
💡 Aplicação Prática
As verdades reveladas em Gênesis 1 têm profundas aplicações práticas para a vida pessoal, a igreja e a sociedade contemporânea. Na vida pessoal, Gênesis 1 nos convida a uma cosmovisão teocêntrica, onde Deus é o centro de tudo. Reconhecer Deus como o Criador soberano nos leva à humildade, à gratidão e à confiança em sua providência. Saber que somos feitos à imagem de Deus nos confere um senso de propósito e valor, encorajando-nos a viver de forma que reflita seu caráter. Isso implica buscar a santidade, a justiça e o amor em todas as nossas interações, e a exercer a mordomia sobre os recursos que nos foram confiados [8].
Para a igreja, Gênesis 1 serve como um chamado à adoração e à proclamação. A igreja é chamada a adorar o Deus Criador, reconhecendo sua majestade e poder em cada culto e em cada aspecto da vida comunitária. A pregação do evangelho deve começar com a verdade da criação, pois é somente à luz da criação perfeita de Deus que a profundidade do pecado e a necessidade da redenção em Cristo podem ser plenamente compreendidas. Além disso, a igreja tem a responsabilidade de ensinar e modelar a mordomia da criação, engajando-se em ações que promovam a sustentabilidade ambiental e a justiça social, como parte de seu testemunho do Reino de Deus.
Na sociedade, Gênesis 1 oferece um fundamento para a ética e a moralidade. A dignidade intrínseca de cada ser humano, baseada na imagem de Deus, é a base para a defesa da vida, da justiça e dos direitos humanos. Isso tem implicações para questões contemporâneas como o aborto, a eutanásia, a engenharia genética e a igualdade racial. Reconhecer que a criação é um dom de Deus nos chama a uma responsabilidade ecológica, combatendo a exploração desenfreada dos recursos naturais e promovendo práticas que preservem o planeta para as futuras gerações. Gênesis 1, portanto, não é apenas um texto antigo, mas uma fonte viva de sabedoria para enfrentar os desafios do mundo moderno.
📚 Para Aprofundar
- A relação entre Gênesis 1 e a ciência moderna: Como conciliar a narrativa bíblica da criação com as descobertas científicas sobre a origem do universo e da vida? Explore diferentes modelos de interpretação (criacionismo da terra jovem, criacionismo progressivo, evolucionismo teísta) e suas implicações teológicas.
- A imagem de Deus (imago Dei) no ser humano: Aprofunde-se no significado teológico da imago Dei. Quais são as implicações para a dignidade humana, a ética e a responsabilidade social? Como a imago Dei é restaurada em Cristo?
- A teologia da criação e a mordomia ambiental: Estude a responsabilidade cristã de cuidar da criação. Quais são os princípios bíblicos para a ecologia e como a igreja pode se engajar de forma mais eficaz na proteção do meio ambiente?
- Gênesis 1 e a Cristologia: Explore mais a fundo como Gênesis 1 aponta para Cristo como o Criador e Redentor. Como a obra de Cristo na redenção se relaciona com a obra de Deus na criação?
- O conceito de tohu va-bohu (sem forma e vazia): Pesquise o significado e as implicações teológicas dessa expressão hebraica no contexto do Antigo Oriente Próximo e na teologia bíblica.
Sugestões de conexões com outros textos bíblicos:
- Salmos 8 e 104: Louvor ao Criador e à sua obra.
- Jó 38-41: A soberania de Deus na criação e sua sabedoria inquestionável.
- Provérbios 8:22-31: A sabedoria personificada na criação.
- João 1:1-5: Cristo como o Verbo criador.
- Colossenses 1:15-17: Cristo como o Criador e sustentador de todas as coisas.
- Romanos 1:18-20: A revelação de Deus na criação.
- Hebreus 11:3: A criação pela fé.
Referências:
[1] Walton, John H. The Lost World of Genesis One: Ancient Cosmology and the Origins Debate. IVP Academic, 2009.
[2] Wenham, Gordon J. Genesis 1-15. Word Biblical Commentary, vol. 1. Word Books, 1987.
[3] Sailhamer, John H. Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account. Multnomah Books, 1996.
[4] Calvin, John. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis. Baker Books, 2009.
[5] Levenson, Jon D. Creation and the Persistence of Evil: The Jewish Drama of Divine Omnipotence. Princeton University Press, 1994.
[6] Wright, N. T. Surprised by Hope: Rethinking Heaven, the Resurrection, and the Mission of the Church. HarperOne, 2008.
[7] Erickson, Millard J. Christian Theology. 3rd ed. Baker Academic, 2013.
[8] Schaeffer, Francis A. Pollution and the Death of Man: A Christian View of Ecology. Crossway Books, 1970.
Gênesis 1
📜 Texto-base
1 No princípio, criou Deus os céus e a terra.
2 A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.
3 Disse Deus: Haja luz; e houve luz.
4 Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas.
5 Chamou Deus à luz Dia e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia.
6 E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e haja separação entre águas e águas.
7 Fez, pois, Deus o firmamento e fez separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as que estavam por cima do firmamento. E assim se fez.
8 Chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia.
9 Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez.
10 À porção seca chamou Deus Terra e ao ajuntamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era bom.
11 E disse: Produza a terra relva, ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez.
12 A terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, cuja semente estava nele, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.
13 Houve tarde e manhã, o terceiro dia.
14 Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para estações, e para dias e anos.
15 E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez.
16 Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas.
17 E os colocou no firmamento dos céus para alumiar a terra,
18 para governarem o dia e a noite e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom.
19 Houve tarde e manhã, o quarto dia.
20 Disse também Deus: Povoem-se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, no firmamento dos céus.
21 Criou, pois, Deus os grandes monstros marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom.
22 E Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e na terra se multipliquem as aves.
23 Houve tarde e manhã, o quinto dia.
24 Disse também Deus: Produza a terra seres viventes, conforme a sua espécie: animais domésticos, répteis e animais selváticos, segundo a sua espécie. E assim se fez.
25 Fez Deus os animais selváticos, segundo a sua espécie, e os animais domésticos, conforme a sua espécie, e todos os répteis da terra, segundo a sua espécie. E viu Deus que isso era bom.
26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.
27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
28 E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.
29 Disse mais: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será por alimento.
30 E a todo animal da terra, e a toda ave dos céus, e a todo réptil da terra, em que há fôlego de vida, toda a erva verde lhes será para mantimento. E assim se fez.
31 Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.
🎯 Visão Geral do Capítulo
O livro de Gênesis, e particularmente seu primeiro capítulo, serve como o alicerce fundamental para toda a narrativa bíblica. Ele não é meramente um registro histórico ou científico, mas uma revelação divina que introduz Deus como o Criador soberano e todo-poderoso do universo. Gênesis 1 estabelece a doutrina da criação ex nihilo, ou seja, Deus criando do nada, e apresenta uma cosmogonia que, embora possua paralelos com outras culturas antigas do Oriente Próximo, se distingue por sua ênfase no monoteísmo e no caráter benevolente de Deus. Este capítulo é crucial para a compreensão da natureza de Deus, da humanidade e do propósito da criação.
Os temas principais de Gênesis 1 incluem a soberania de Deus sobre o caos, a ordem e a bondade da criação, a distinção entre Criador e criatura, e a singularidade da criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus. A narrativa é estruturada em dias de criação, culminando no sétimo dia de descanso, que prefigura o conceito de sábado. Este capítulo não apenas narra o início do cosmos, mas também estabelece princípios teológicos profundos que ressoam por toda a Escritura, como a dignidade da vida humana, a responsabilidade do homem sobre a criação e a natureza pactual de Deus com seu universo.
📖 Contexto Histórico e Cultural
A narrativa de Gênesis 1 foi escrita em um contexto histórico e cultural específico, provavelmente por Moisés, para o povo de Israel que estava emergindo da escravidão no Egito. Este povo, imerso em um ambiente politeísta e monolátrico, precisava de uma compreensão clara da identidade e do poder de seu Deus, Javé. A cosmogonia de Gênesis, portanto, funciona como uma exposição corretiva às narrativas de criação pagãs da época, que frequentemente retratavam deuses em conflito e uma criação resultante de violência ou acasos. Em contraste, Gênesis 1 apresenta um Deus único, transcendente e imanente, que cria de forma ordenada e intencional.
As práticas culturais do Antigo Oriente Próximo frequentemente envolviam mitos de criação que explicavam a origem do mundo através de batalhas entre divindades ou a partir de materiais preexistentes. Por exemplo, o Enuma Elish babilônico descreve a criação do mundo a partir do corpo de uma deusa derrotada. Gênesis 1, ao invés disso, destaca a facilidade e a autoridade da criação divina através da palavra (
divina. A ausência de conflito e a bondade intrínseca de cada estágio da criação são pontos cruciais que diferenciam a narrativa bíblica das cosmogonias pagãs [1].
A geografia e a arqueologia relevantes para Gênesis 1, embora não diretamente mencionadas no texto, fornecem um pano de fundo para a compreensão do mundo antigo. A Mesopotâmia, berço de civilizações como a Suméria e a Babilônia, era rica em mitos de criação que os israelitas teriam conhecido. A familiaridade com essas narrativas pagãs teria permitido que o público original de Gênesis compreendesse a radicalidade da mensagem monoteísta e criacionista apresentada por Moisés. A arqueologia tem revelado textos antigos que descrevem inundações universais e a criação do homem a partir do barro, o que, embora com diferenças significativas, mostra a universalidade de certas preocupações humanas sobre as origens.
As conexões com o Antigo Oriente Próximo são vitais para uma exegese adequada de Gênesis 1. O texto não foi escrito em um vácuo cultural, mas dialoga com as ideias prevalecentes da época. Por exemplo, a menção de um “abismo” (Gn 1:2) pode evocar a Tiamat do Enuma Elish, mas Gênesis subverte essa imagem ao apresentar o “abismo” como uma entidade passiva sobre a qual o Espírito de Deus paira, aguardando a ordem criativa. Da mesma forma, a criação do sol, da lua e das estrelas no quarto dia, após a criação da luz, desmistifica as divindades celestiais adoradas em muitas culturas pagãs, relegando-as ao status de meras luminárias criadas por Deus para propósitos específicos [2]. Essa desmitologização é um aspecto central da mensagem teológica de Gênesis 1, afirmando a supremacia de Javé sobre todas as outras supostas divindades.
🔍 Exposição do Texto
Gênesis 1 inicia com a declaração majestosa: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1). Esta frase serve como um título para todo o capítulo, afirmando a autoria divina da criação. A palavra hebraica para “criou”, bara (ברא), é significativa, pois é usada exclusivamente para a atividade criativa de Deus, implicando uma criação sem material preexistente ou, pelo menos, uma ação que transcende a capacidade humana de moldar ou formar. A terra é descrita como “sem forma e vazia” (tohu va-bohu), e a escuridão cobria a face do abismo, enquanto o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gn 1:2). Esta imagem de um caos primordial não sugere uma luta divina, mas um estado de desordem que Deus está prestes a transformar em ordem e vida.
Os dias da criação são apresentados em uma estrutura literária que revela a intencionalidade e a ordem divina. Os três primeiros dias estabelecem os domínios: luz/escuridão, firmamento/águas, terra seca/vegetação. Os três dias seguintes preenchem esses domínios com seus respectivos habitantes: luminares para governar o dia e a noite, aves e peixes para as águas e o firmamento, e animais terrestres e o homem para a terra seca. Essa estrutura paralela enfatiza a organização e o propósito da criação. A repetição da frase “E viu Deus que era bom” após cada ato criativo, culminando em “muito bom” após a criação do homem, sublinha a perfeição e a bondade intrínseca da obra de Deus [3].
A exegese detalhada de cada dia revela a progressão da criação. No primeiro dia, Deus cria a luz pela sua palavra, separando-a das trevas (Gn 1:3-5). A luz não é o sol, que só aparece no quarto dia, sugerindo que Deus é a fonte primária de luz e vida. No segundo dia, Deus cria o firmamento, separando as águas acima das águas abaixo (Gn 1:6-8). O terceiro dia vê a reunião das águas para que a terra seca apareça, e a terra produz vegetação (Gn 1:9-13). A criação da vegetação antes do sol no quarto dia reforça a ideia de que a vida não depende exclusivamente dos luminares celestiais, mas da palavra criativa de Deus.
O quarto dia (Gn 1:14-19) marca a criação dos luminares para governar o dia e a noite, para sinais, estações, dias e anos. Eles são designados para dar luz sobre a terra, e não são adorados como divindades, mas são servos de Deus. No quinto dia (Gn 1:20-23), as águas e o firmamento são preenchidos com criaturas vivas: peixes e aves. Deus os abençoa e lhes diz para serem frutíferos e se multiplicarem. O sexto dia (Gn 1:24-31) é o clímax da criação, com a produção de animais terrestres e, finalmente, a criação do ser humano. A criação do homem é única, pois Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26). A pluralidade em “Façamos” tem sido objeto de muita discussão teológica, apontando para a natureza plural de Deus (Trindade) ou para um conselho divino. A imagem e semelhança de Deus conferem ao homem dignidade, racionalidade, moralidade e a capacidade de se relacionar com seu Criador, além de domínio sobre a criação.
A teologia do texto de Gênesis 1 é rica e multifacetada. Ela estabelece a fundação para a compreensão da soberania de Deus, sua transcendência e imanência, e a bondade de sua criação. A criação do homem à imagem de Deus é um tema central, que confere à humanidade um status especial e uma responsabilidade única. O mandato cultural de “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1:28) não é uma licença para exploração irresponsável, mas um chamado à mordomia e ao cuidado da criação. A instituição do sábado no sétimo dia (Gn 2:1-3), embora não explicitamente em Gênesis 1, é o resultado lógico da obra criativa de Deus, um tempo de descanso e contemplação da perfeição de sua obra. Gênesis 1, portanto, não é apenas um relato de como o mundo começou, mas uma profunda declaração teológica sobre quem Deus é e qual é o propósito da existência.
💭 As Três Perguntas
1️⃣ Onde estava a graça?
A graça de Deus em Gênesis 1 é manifesta de diversas formas, mesmo antes da queda e da necessidade de redenção no sentido estrito. Primeiramente, a própria existência da criação é um ato de graça. Deus não precisava criar; Ele o fez por sua livre e soberana vontade, por amor e para manifestar sua glória. A criação de um universo ordenado, belo e funcional, capaz de sustentar a vida, é uma expressão da benevolência divina. A provisão de luz, terra seca, vegetação, luminares e criaturas vivas, tudo o que é necessário para a existência e o florescimento da vida, demonstra a generosidade e o cuidado de Deus para com sua criação [4].
Além disso, a criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus é um ato de graça incomparável. Dentre todas as criaturas, apenas o homem recebe essa distinção, que lhe confere dignidade, valor intrínseco e a capacidade de se relacionar com seu Criador. Essa imagem divina não é algo que o homem mereceu, mas um dom gratuito de Deus. A bênção de Deus para o homem e a mulher – “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1:28) – é uma expressão de sua graça, concedendo-lhes propósito, autoridade e a capacidade de participar da obra criativa de Deus na mordomia da terra.
A bondade intrínseca de toda a criação, reiterada pela frase “E viu Deus que era bom” e, finalmente, “muito bom” (Gn 1:31), é um testemunho da graça divina. Deus não criou um mundo imperfeito ou deficiente, mas um ambiente perfeito e harmonioso para a vida. Essa perfeição original, antes da entrada do pecado, é um reflexo da natureza graciosa de Deus, que deseja o bem-estar e a felicidade de suas criaturas. Mesmo em um mundo sem pecado, a dependência da criação em relação ao seu Criador para a existência e sustentação é uma manifestação contínua da graça divina.
2️⃣ Como era a adoração?
Em Gênesis 1, a adoração não é apresentada de forma explícita através de rituais ou cânticos, mas é inerente à própria estrutura da criação e à resposta esperada da humanidade. A adoração primordial em Gênesis 1 é a reconhecimento da soberania e majestade de Deus como Criador. A simples existência de um universo ordenado e belo, que aponta para um Designer inteligente e poderoso, convida à admiração e ao louvor. A repetição da frase “E disse Deus” seguida da realização de sua palavra demonstra seu poder absoluto e sua autoridade, que naturalmente inspiram reverência e adoração [5].
A resposta humana a Deus, mesmo antes da queda, seria uma vida de obediência e mordomia. O mandato cultural de “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1:28) pode ser entendido como um ato de adoração, onde a humanidade, agindo como vice-regentes de Deus, administra a criação de acordo com a vontade do Criador. Cuidar da terra, cultivá-la e desfrutar de seus frutos em gratidão seriam formas de adoração. A própria existência do homem à imagem de Deus implica uma capacidade inata de se relacionar com Ele, de refletir seu caráter e de glorificá-lo através de sua vida e ações.
Além disso, o padrão de trabalho e descanso estabelecido nos dias da criação, culminando no sétimo dia de descanso de Deus (Gn 2:1-3), prefigura a importância do sábado como um dia dedicado à adoração e à lembrança da obra criativa de Deus. Embora o conceito de sábado seja formalizado posteriormente na lei mosaica, suas raízes estão na própria estrutura da criação. O descanso de Deus não implica exaustão, mas a satisfação em sua obra completa e perfeita, convidando a humanidade a participar desse descanso e a contemplar a glória do Criador. Assim, a adoração em Gênesis 1 é fundamentalmente uma resposta de admiração, obediência e gratidão ao Deus Criador.
3️⃣ O que foi revelado sobre o Reino de Deus?
Embora o termo “Reino de Deus” não seja explicitamente usado em Gênesis 1, os fundamentos para sua compreensão são estabelecidos de forma clara. O Reino de Deus é, em sua essência, o domínio soberano de Deus sobre toda a criação. Gênesis 1 revela um Deus que é o Rei supremo, cujo governo é absoluto e incontestável. Ele cria pela sua palavra, e tudo o que Ele ordena se cumpre. A ordem e a estrutura do universo são um testemunho de seu reinado. A separação da luz das trevas, das águas do firmamento, e a organização da terra e dos céus demonstram que Deus é um Deus de ordem e que seu Reino é caracterizado por essa ordem divina [6].
A criação do homem à imagem de Deus e o mandato para “dominar” e “sujeitar” a terra (Gn 1:28) revelam que a humanidade foi criada para ser parte integrante do Reino de Deus, atuando como seus representantes na terra. O homem e a mulher são coroados com glória e honra, recebendo autoridade para governar a criação sob a soberania de Deus. Isso significa que o Reino de Deus não é apenas um domínio celestial, mas também um domínio terrestre, onde a vontade de Deus é expressa através de seus vice-regentes humanos. A terra, em sua perfeição original, era o cenário para o florescimento desse Reino, onde a harmonia entre Deus, a humanidade e a criação era plena.
O Reino de Deus em Gênesis 1 é um Reino de bênção e vida. Deus abençoa suas criaturas, especialmente a humanidade, e provê abundantemente para suas necessidades. A ausência de pecado e morte no estado original da criação aponta para um Reino onde a justiça e a paz prevalecem. A visão de um mundo onde tudo é “muito bom” (Gn 1:31) é a imagem ideal do Reino de Deus, um lugar onde a vontade de Deus é perfeitamente realizada e onde suas criaturas desfrutam de sua presença e provisão. Embora o pecado tenha subsequentemente distorcido essa realidade, Gênesis 1 nos oferece um vislumbre do propósito original de Deus para seu Reino e serve como um modelo para a restauração futura desse Reino através de Cristo.
🧠 Reflexão Teológica
Gênesis 1 é a pedra angular da teologia sistemática, fornecendo a base para doutrinas cruciais como a teologia própria (estudo de Deus), a antropologia teológica (estudo do homem) e a hamartiologia (estudo do pecado). Ele revela um Deus transcendente, que existe antes e além da criação, mas também imanente, que está ativamente envolvido em sua obra. A doutrina da Trindade, embora não explicitamente formulada, é prefigurada na pluralidade de “Façamos o homem à nossa imagem” (Gn 1:26) e na menção do Espírito de Deus pairando sobre as águas (Gn 1:2). A soberania de Deus é enfatizada em cada ato criativo, demonstrando seu poder absoluto e sua autoridade sobre tudo o que existe. A bondade de Deus é evidente na perfeição de sua criação, que é declarada “muito boa” [7].
Em termos de Cristologia, Gênesis 1 aponta para Cristo de várias maneiras. Primeiramente, o Novo Testamento identifica Jesus como o agente da criação. João 1:3 declara: “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” Colossenses 1:16 afirma que “nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele.” Assim, Cristo é o Verbo criador, a sabedoria de Deus através da qual o universo veio à existência. A ordem e a beleza da criação são um testemunho do poder e da glória de Cristo. Além disso, a criação do homem à imagem de Deus prefigura Cristo como o “segundo Adão” e a imagem perfeita de Deus (Colossenses 1:15), que viria para restaurar a imagem divina distorcida pelo pecado.
O plano de redenção, embora não plenamente desenvolvido em Gênesis 1, tem suas raízes aqui. A criação de um mundo perfeito e a subsequente queda da humanidade (narrada em Gênesis 3) estabelecem a necessidade de redenção. Gênesis 1, ao apresentar a bondade original da criação e a dignidade do homem, fornece o contexto para entender a profundidade da tragédia do pecado e a magnitude da obra redentora de Deus. A promessa de um Redentor, que esmagaria a cabeça da serpente (Gn 3:15), é a resposta de Deus à queda, e essa promessa é ainda mais significativa quando se compreende a perfeição do mundo que foi perdido. A redenção, portanto, é a restauração do propósito original de Deus para a criação e para a humanidade, um retorno à harmonia e à glória prefiguradas em Gênesis 1.
Temas teológicos maiores que perpassam Gênesis 1 incluem a relação entre fé e ciência, a mordomia da criação e a dignidade da vida humana. Gênesis 1 não é um manual científico, mas uma declaração teológica sobre a origem e o propósito do universo. Ele nos convida a crer em um Deus que é o Criador de tudo, e essa fé não está em oposição à verdadeira ciência, mas a transcende. A responsabilidade de cuidar da criação, derivada do mandato cultural, é um tema urgente em nosso tempo, chamando os cristãos a serem bons mordomos do planeta. A dignidade da vida humana, baseada na imagem de Deus, é o fundamento para a ética e a moralidade, afirmando o valor intrínseco de cada indivíduo desde a concepção até a morte natural.
💡 Aplicação Prática
As verdades reveladas em Gênesis 1 têm profundas aplicações práticas para a vida pessoal, a igreja e a sociedade contemporânea. Na vida pessoal, Gênesis 1 nos convida a uma cosmovisão teocêntrica, onde Deus é o centro de tudo. Reconhecer Deus como o Criador soberano nos leva à humildade, à gratidão e à confiança em sua providência. Saber que somos feitos à imagem de Deus nos confere um senso de propósito e valor, encorajando-nos a viver de forma que reflita seu caráter. Isso implica buscar a santidade, a justiça e o amor em todas as nossas interações, e a exercer a mordomia sobre os recursos que nos foram confiados [8].
Para a igreja, Gênesis 1 serve como um chamado à adoração e à proclamação. A igreja é chamada a adorar o Deus Criador, reconhecendo sua majestade e poder em cada culto e em cada aspecto da vida comunitária. A pregação do evangelho deve começar com a verdade da criação, pois é somente à luz da criação perfeita de Deus que a profundidade do pecado e a necessidade da redenção em Cristo podem ser plenamente compreendidas. Além disso, a igreja tem a responsabilidade de ensinar e modelar a mordomia da criação, engajando-se em ações que promovam a sustentabilidade ambiental e a justiça social, como parte de seu testemunho do Reino de Deus.
Na sociedade, Gênesis 1 oferece um fundamento para a ética e a moralidade. A dignidade intrínseca de cada ser humano, baseada na imagem de Deus, é a base para a defesa da vida, da justiça e dos direitos humanos. Isso tem implicações para questões contemporâneas como o aborto, a eutanásia, a engenharia genética e a igualdade racial. Reconhecer que a criação é um dom de Deus nos chama a uma responsabilidade ecológica, combatendo a exploração desenfreada dos recursos naturais e promovendo práticas que preservem o planeta para as futuras gerações. Gênesis 1, portanto, não é apenas um texto antigo, mas uma fonte viva de sabedoria para enfrentar os desafios do mundo moderno.
📚 Para Aprofundar
- A relação entre Gênesis 1 e a ciência moderna: Como conciliar a narrativa bíblica da criação com as descobertas científicas sobre a origem do universo e da vida? Explore diferentes modelos de interpretação (criacionismo da terra jovem, criacionismo progressivo, evolucionismo teísta) e suas implicações teológicas.
- A imagem de Deus (imago Dei) no ser humano: Aprofunde-se no significado teológico da imago Dei. Quais são as implicações para a dignidade humana, a ética e a responsabilidade social? Como a imago Dei é restaurada em Cristo?
- A teologia da criação e a mordomia ambiental: Estude a responsabilidade cristã de cuidar da criação. Quais são os princípios bíblicos para a ecologia e como a igreja pode se engajar de forma mais eficaz na proteção do meio ambiente?
- Gênesis 1 e a Cristologia: Explore mais a fundo como Gênesis 1 aponta para Cristo como o Criador e Redentor. Como a obra de Cristo na redenção se relaciona com a obra de Deus na criação?
- O conceito de tohu va-bohu (sem forma e vazia): Pesquise o significado e as implicações teológicas dessa expressão hebraica no contexto do Antigo Oriente Próximo e na teologia bíblica.
Sugestões de conexões com outros textos bíblicos:
- Salmos 8 e 104: Louvor ao Criador e à sua obra.
- Jó 38-41: A soberania de Deus na criação e sua sabedoria inquestionável.
- Provérbios 8:22-31: A sabedoria personificada na criação.
- João 1:1-5: Cristo como o Verbo criador.
- Colossenses 1:15-17: Cristo como o Criador e sustentador de todas as coisas.
- Romanos 1:18-20: A revelação de Deus na criação.
- Hebreus 11:3: A criação pela fé.
Referências:
[1] Walton, John H. The Lost World of Genesis One: Ancient Cosmology and the Origins Debate. IVP Academic, 2009.
[2] Wenham, Gordon J. Genesis 1-15. Word Biblical Commentary, vol. 1. Word Books, 1987.
[3] Sailhamer, John H. Genesis Unbound: A Provocative New Look at the Creation Account. Multnomah Books, 1996.
[4] Calvin, John. Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis. Baker Books, 2009.
[5] Levenson, Jon D. Creation and the Persistence of Evil: The Jewish Drama of Divine Omnipotence. Princeton University Press, 1994.
[6] Wright, N. T. Surprised by Hope: Rethinking Heaven, the Resurrection, and the Mission of the Church. HarperOne, 2008.
[7] Erickson, Millard J. Christian Theology. 3rd ed. Baker Academic, 2013.
[8] Schaeffer, Francis A. Pollution and the Death of Man: A Christian View of Ecology. Crossway Books, 1970.