Tobit perde a visão após um ato de misericórdia — o paradoxo do sofrimento do justo, ecoando o tema de Jó.
Naquela mesma noite lavei-me, entrei no meu pátio e me deitei junto à parede do pátio... e os olhos ficaram abertos para o céu. — Tobias 2:9-10
O capítulo 2 apresenta o evento central que desencadeia toda a narrativa: Tobit perde a visão. O contexto é profundamente irônico — ele acabara de enterrar um judeu morto (ato de misericórdia) quando excrementos de pardal caem em seus olhos e o cegam. O sofrimento vem imediatamente após um ato de bondade. Esta ironia é intencional: o autor está dialogando com a teologia da retribuição (os bons prosperam, os maus sofrem) e mostrando que a vida real é mais complexa.
O paralelo com Jó é evidente e intencional. Assim como Jó sofreu sem culpa e foi questionado por sua esposa ('Ainda perseveras na tua integridade?' — Jó 2:9), Tobit sofre sem culpa e é questionado por sua esposa Ana ('Onde estão agora as tuas esmolas e as tuas obras de justiça?' — Tb 2:14). Em ambos os casos, o sofrimento do justo é um mistério que só se resolve na providência de Deus.
O autor usa a cegueira de Tobit como metáfora teológica: o homem que mais 'viu' (que enxergou a necessidade dos pobres, dos mortos insepultos, dos exilados) agora não pode ver. Mas a cegueira física não apaga a visão espiritual — Tobit continua orando, confiando e esperando em Deus. A cura de sua cegueira no final do livro é a resposta de Deus à fidelidade que perseverou no escuro.
A cura da cegueira de Tobit no final do livro (Tb 11:7-15) prefigura as curas de cegos por Jesus nos evangelhos. Em João 9:3, quando os discípulos perguntam se o cego nasceu assim por causa do pecado dele ou de seus pais, Jesus responde: 'Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que as obras de Deus se manifestem nele.' Esta resposta é a resposta teológica definitiva à pergunta de Ana em Tobias 2:14.