Se alguém disser que o homem é justificado pela fé somente, de modo que se entenda que nada mais é requerido para cooperar para a obtenção da graça da justificação — seja anátema.
— Cânon IX do Decreto sobre a Justificação, Concílio de Trento (1547)
O Concílio de Trento (1545–1563) foi a resposta da Igreja Católica à Reforma Protestante — o maior desafio que a Igreja havia enfrentado desde as heresias cristológicas do século V. Convocado pelo Papa Paulo III, o Concílio se reuniu em três períodos distintos ao longo de 18 anos na cidade de Trento (atual Trento, norte da Itália). Foi o Concílio mais longo da história e o que produziu o maior volume de definições dogmáticas e reformas disciplinares.
O Concílio de Trento foi ao mesmo tempo uma resposta à Reforma e uma reforma genuína da Igreja Católica. Ele reafirmou as doutrinas contestadas pelos protestantes — mas também reconheceu os abusos que haviam provocado a Reforma e promoveu reformas disciplinares significativas. Trento não foi apenas uma reação defensiva — foi uma renovação que transformou o Catolicismo para os séculos seguintes.
Além das definições dogmáticas, Trento promoveu reformas disciplinares que transformaram a Igreja Católica. A criação de seminários diocesanos para a formação do clero foi talvez a reforma mais importante: antes de Trento, muitos padres eram ignorantes e mal formados; depois de Trento, a formação clerical tornou-se sistemática e rigorosa. O absenteísmo episcopal foi combatido: bispos foram obrigados a residir em suas dioceses. O nepotismo e a simonia foram proibidos. O casamento foi regulamentado: passou a exigir a presença de um padre e duas testemunhas para ser válido.
O Catecismo Romano (1566), o Missal Romano (1570) e o Breviário Romano (1568) — todos produzidos após Trento — padronizaram a liturgia e o ensino católico em todo o mundo. Esta padronização foi tanto uma força (unidade e clareza) quanto uma fraqueza (rigidez e uniformidade que sufocou a diversidade legítima). O Missal de Trento permaneceu em uso por quase 400 anos, até ser reformado pelo Concílio Vaticano II.
O Concílio de Trento é um exemplo de como a crise pode ser um catalisador de renovação. A Reforma Protestante foi um choque para a Igreja Católica — mas também foi um espelho que revelou seus pecados e fraquezas. Trento não teria acontecido sem Lutero. A renovação que Trento promoveu — seminários, residência episcopal, fim do comércio de indulgências — era necessária e legítima. O paradoxo é que muitas das reformas que Lutero pediu foram implementadas por Trento — mas tarde demais para evitar a divisão. Esta lição histórica é relevante para qualquer instituição: a reforma interna é sempre preferível à ruptura — mas só é possível quando há humildade suficiente para reconhecer os próprios erros.