Capítulo 8
O contra-édito de Mordecai: a reversão do destino e a alegria dos judeus
Texto Bíblico (ACF) — Ester 8
1 Naquele mesmo dia deu o rei Assuero à rainha Ester a casa de Hamã, inimigo dos judeus; e Mordecai veio perante o rei; porque Ester lhe havia declarado o que ele era para ela.
2 E o rei tirou o seu anel, que havia sido tomado de Hamã, e o deu a Mordecai; e Ester pôs a Mordecai sobre a casa de Hamã.
3 E Ester falou mais perante o rei, e se lançou a seus pés, e chorou, e lhe pediu que fizesse cessar a maldade de Hamã, o agagita, e o seu intento que havia tramado contra os judeus.
4 E o rei estendeu a Ester o cetro de ouro; e Ester se levantou, e se pôs em pé diante do rei.
5 E disse: Se ao rei parece bem, e se achei graça perante ele, e se a coisa parece reta ao rei, e se eu sou agradável aos seus olhos, escreva-se para revogar as cartas do intento de Hamã, filho de Hamedata, o agagita, que escreveu para destruir os judeus que estão em todas as províncias do rei.
6 Porque como poderia eu ver o mal que sobrevirá ao meu povo? ou como poderia eu ver a destruição da minha parentela?
7 Então disse o rei Assuero à rainha Ester e a Mordecai, o judeu: Eis que dei a Ester a casa de Hamã, e a ele enforcaram num madeiro, porquanto lançou mão dos judeus.
8 Escrevei vós também pelos judeus, como vos parecer bem, em nome do rei, e selai com o anel do rei; porque o escrito que foi escrito em nome do rei, e selado com o anel do rei, não pode ser revogado.
9 Então foram chamados os escrivães do rei naquele tempo, no terceiro mês (que é o mês de sivã), no dia vinte e três do mesmo; e foi escrito conforme tudo o que Mordecai havia ordenado, aos judeus, e aos sátrapas, e aos governadores, e aos príncipes das províncias, desde a Índia até à Etiópia, cento e vinte e sete províncias, a cada província segundo a sua escrita, e a cada povo segundo a sua língua, e aos judeus segundo a sua escrita e segundo a sua língua.
10 E escreveu em nome do rei Assuero, e selou com o anel do rei, e enviou cartas por mão dos correios a cavalo, que andavam em mulas e dromedários filhos de éguas.
11 Em que o rei dava licença aos judeus que estavam em cada cidade, para que se ajuntassem e defendessem as suas vidas, para destruir, matar, e acabar com todo o poder do povo e da província que os oprimisse, tanto crianças como mulheres, e para saquear os seus bens;
12 Num só dia em todas as províncias do rei Assuero, no dia treze do duodécimo mês (que é o mês de adar).
13 A cópia do escrito, para que fosse dado por decreto em cada província, foi publicada a todos os povos, e para que os judeus estivessem preparados para aquele dia, para se vingarem dos seus inimigos.
14 Os correios que andavam em mulas e dromedários saíram apressados e urgidos pela palavra do rei; e o decreto foi dado em Susã, a capital.
15 E Mordecai saiu da presença do rei com vestes reais de azul e branco, e com uma grande coroa de ouro, e com um manto de linho fino e de púrpura; e a cidade de Susã exultou e se alegrou.
16 E para os judeus houve luz e alegria, e júbilo e honra.
17 E em cada província e em cada cidade, a qualquer lugar onde chegava a palavra do rei e o seu decreto, havia alegria e júbilo entre os judeus, banquete e dia de festa. E muitos dos povos da terra se fizeram judeus; porque o temor dos judeus havia caído sobre eles.
Contexto Histórico e Geográfico
O capítulo 8 do Livro de Ester emerge como um ponto de virada dramático na narrativa, marcando a reversão de um destino sombrio e a ascensão da esperança para os judeus no Império Persa. Para compreender plenamente a riqueza e o impacto deste texto, é imperativo mergulhar no seu contexto histórico e geográfico, um cenário complexo e fascinante do século V a.C. O período em questão é o reinado de Xerxes I (486-465 a.C.), conhecido nas fontes hebraicas como Assuero, um dos monarcas mais poderosos da Dinastia Aquemênida. O Império Persa, em seu apogeu, estendia-se da Índia à Etiópia, abrangendo vastas regiões da Ásia, África e Europa. Xerxes herdou de seu pai, Dario I, um império meticulosamente organizado, com uma intrincada rede de estradas (como a famosa Estrada Real), um sistema postal eficiente e uma administração centralizada que permitia o controle sobre satrapias distantes. As inscrições persas, como as de Persépolis e Naqsh-e Rustam, glorificam o poder e a divindade do rei, que se autodenominava "rei dos reis", "rei de muitas terras", refletindo a grandiosidade e a autoridade que o Livro de Ester atribui a Assuero. Este cenário geopolítico de poder centralizado e vasta extensão é crucial para entender a capacidade do rei de emitir decretos que afetavam milhões de pessoas em todo o império.
A cidade de Susã (Shushan), capital de inverno do Império Aquemênida, serve como o palco principal para os eventos do Livro de Ester, e o capítulo 8 não é exceção. Arqueologicamente, Susã, localizada no atual Irã, tem sido objeto de extensas escavações desde o século XIX, revelando a magnificência da cidade persa. Os achados incluem os restos do palácio de Dario e Xerxes, com suas impressionantes colunas, relevos e decorações, que corroboram a descrição bíblica de um palácio suntuoso. A arquitetura de Susã, com seus vastos pátios, salas de audiência e aposentos reais, reflete a grandiosidade do império. Politicamente, Susã era o centro nervoso do império, onde as decisões mais importantes eram tomadas e de onde os decretos reais eram enviados para todas as províncias. A menção de Mordecai saindo do palácio com vestes reais e um grande diadema de ouro (Ester 8:15) não é apenas um detalhe literário, mas um reflexo da pompa e da hierarquia da corte persa. A cidade não era apenas um centro administrativo, mas também um caldeirão cultural, com a presença de diversas etnias e religiões, incluindo uma significativa comunidade judaica, como veremos.
A situação dos judeus na diáspora persa é um elemento central para a compreensão do Livro de Ester. Após a destruição do Primeiro Templo e o exílio babilônico no século VI a.C., muitos judeus foram realocados para várias partes do Império Neobabilônico, que mais tarde foi absorvido pelo Império Persa. Embora Ciro, o Grande, tenha emitido um decreto permitindo o retorno dos judeus a Judá para reconstruir o Templo (Esdras 1:1-4), muitos optaram por permanecer nas terras onde se estabeleceram, formando comunidades prósperas e influentes em cidades como Babilônia, Nipur e, evidentemente, Susã. Esses judeus da diáspora, embora mantivessem sua identidade religiosa e cultural, estavam sujeitos às leis e costumes persas. O Livro de Ester retrata uma comunidade judaica vulnerável, mas também resiliente, capaz de ascender a posições de poder (como Mordecai) e de mobilizar-se em tempos de crise. A ameaça de extermínio em Ester 3 e a subsequente salvação em Ester 8 ressaltam a precariedade e a esperança da existência judaica na diáspora, um tema recorrente na história judaica.
O capítulo 8 e o Livro de Ester em geral oferecem um vislumbre valioso dos costumes, leis e práticas persas. A irrevocabilidade das leis persas é um tema recorrente (Ester 1:19, 8:8), e é precisamente por isso que um "contra-édito" se faz necessário em vez de uma simples revogação do decreto de Hamã. O rei não podia simplesmente anular uma lei já promulgada. Em vez disso, Mordecai e Ester precisaram elaborar um novo decreto que concedia aos judeus o direito de se defenderem, efetivamente neutralizando a ameaça anterior. Este detalhe é corroborado por fontes extrabíblicas, como o historiador grego Heródoto, que descreve a rigidez das leis persas. A prática de selar decretos reais com o anel do rei (Ester 8:8, 10) era um selo de autenticidade e autoridade, garantindo que o documento era uma ordem direta do monarca. A utilização de mensageiros montados em cavalos velozes (Ester 8:10) para distribuir os decretos por todo o império reflete a eficiência do sistema de comunicação persa, vital para governar um império tão vasto. Estes detalhes não são meros adornos, mas elementos que atestam a autenticidade histórica do cenário descrito no livro.
As conexões com fontes históricas extrabíblicas são fundamentais para ancorar o Livro de Ester na realidade histórica do Império Persa. Embora o Livro de Ester não seja mencionado diretamente por Heródoto ou em inscrições persas, os detalhes culturais, administrativos e geopolíticos que ele apresenta são notavelmente consistentes com o que sabemos sobre o período aquemênida. A descrição da corte real, a hierarquia de oficiais, a natureza das leis e a extensão do império, conforme retratadas em Ester, encontram paralelos em Heródoto e em inscrições cuneiformes. Por exemplo, Heródoto descreve a magnificência dos banquetes persas e a autoridade absoluta do rei, ecoando as descrições no Livro de Ester. A menção de 127 províncias (Ester 8:9) coincide com a vasta extensão do império persa, embora o número exato possa variar ligeiramente em diferentes fontes. A ausência de Ester e Mordecai em registros persas não é incomum, dado o vasto número de funcionários e a natureza seletiva dos registros históricos da época. No entanto, a precisão dos detalhes culturais e administrativos confere ao Livro de Ester uma forte credibilidade como uma narrativa ambientada no contexto persa.
A geografia das localidades mencionadas no capítulo 8 reforça a abrangência do decreto de Mordecai e a extensão do Império Persa. O decreto foi enviado "a todas as províncias, desde a Índia até a Etiópia, a cento e vinte e sete províncias" (Ester 8:9). Esta descrição geográfica não é uma hipérbole, mas uma representação precisa da máxima extensão do Império Aquemênida sob Xerxes I. A "Índia" (Hindush) referia-se à região do vale do Indo, que era uma satrapia persa. A "Etiópia" (Kush) designava a região ao sul do Egito, que também estava sob o controle persa. As 127 províncias, embora o número exato possa ser debatido por historiadores modernos, sublinha a vasta extensão territorial do império e a diversidade de povos e culturas que ele englobava. A menção de "cada província segundo a sua escrita e a cada povo segundo a sua língua" (Ester 8:9) demonstra a política persa de tolerância cultural e linguística, permitindo que os povos subjugados mantivessem suas identidades, desde que permanecessem leais ao rei. Esta política, embora pragmática, é um fator crucial para entender como uma comunidade judaica poderia prosperar e, em última instância, ser salva em um império tão vasto e diverso.
Mapa das Localidades — Ester Capítulo 8
Mapa do Império Persa e das localidades mencionadas em Ester capítulo 8. O império de Assuero (Xerxes I) estendia-se da Índia à Etiópia, com capital em Susã.
Dissertação Teológica — Ester 8
```html1. A Inversão da Fortuna e a Soberania Divina: O Legado de Hamã e a Ascensão de Mordecai
O capítulo 8 de Ester se inicia com uma cena de inversão dramática, um testemunho eloqüente da soberania divina operando nos bastidores da história humana, mesmo em um livro onde o nome de Deus não é explicitamente mencionado. O versículo 1 nos informa: "Naquele mesmo dia deu o rei Assuero à rainha Ester a casa de Hamã, inimigo dos judeus." Esta frase encapsula a totalidade da reviravolta que se operou na corte persa. A "casa de Hamã", que representava seu poder, sua riqueza e seu status social – elementos que ele havia usado para oprimir e planejar a aniquilação dos judeus – é agora transferida à rainha Ester, uma judia. Esta transferência não é meramente uma questão de propriedade material; é um símbolo poderoso da desgraça total de Hamã e da ascensão correspondente daqueles que ele procurava destruir. A casa, na cultura antiga, era muitas vezes uma extensão da identidade e do legado de um homem, e sua perda, especialmente para um inimigo, era a máxima humilhação e o sinal de sua ruína completa. É um eco do que se vê em Salmos 37:35-36, onde o perverso "se estendeu como a árvore verde na sua terra natal. Contudo, passou, e eis que não era mais; procurei-o, mas não se achou."
A ascensão de Mordecai é igualmente notável e profundamente simbólica. O versículo 2 registra: "E o rei tirou o seu anel, que havia sido tomado de Hamã, e o deu a Mordecai; e Ester o pôs sobre Mordecai." O anel do rei, ou anel-sinete, não era apenas uma joia; era o instrumento legal de autoridade, o selo que conferia legitimidade a decretos reais. Sua posse por Hamã havia sido a base de seu poder para emitir o édito genocida. Agora, esse mesmo símbolo de poder é retirado de Hamã – já executado – e entregue a Mordecai, o judeu que Hamã havia desprezado e tentado enforcar. Esta transferência do anel é mais do que uma promoção; é uma investidura em autoridade real, transformando Mordecai de um funcionário menor e objeto de ódio em um dos homens mais poderosos do império. A imagem de Ester, como mediadora da graça e da justiça, colocando o anel em Mordecai, sublinha a interconexão de suas ações e a providência divina que orquestrou esses eventos.
Esta inversão de fortuna não é um mero acaso ou uma coincidência fortuita; é a manifestação da justiça divina, um tema recorrente nas Escrituras. A exaltação dos humildes e a humilhação dos soberbos é um padrão estabelecido desde os tempos de José (Gênesis 41), passando por Davi (1 Samuel 16-17) e culminando na mensagem de Maria no Magnificat (Lucas 1:52-53): "Derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes; encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos." Hamã, em sua arrogância, havia construído uma forca de cinquenta côvados para Mordecai, mas acabou sendo enforcado nela ele mesmo (Ester 7:9-10). Esta ironia trágica, onde o opressor cai na armadilha que ele mesmo preparou, é um testemunho da retribuição divina e serve como um lembrete para o crente de que, embora a justiça possa demorar, ela certamente virá. O apóstolo Paulo ecoa essa verdade em Gálatas 6:7: "Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois tudo o que o homem semear, isso também colherá."
Para o cristão contemporâneo, a história da queda de Hamã e da ascensão de Mordecai oferece uma perspectiva vital sobre a natureza do poder e da justiça. Em um mundo onde a injustiça muitas vezes parece triunfar e os ímpios prosperam, a narrativa de Ester 8 nos lembra que a soberania de Deus transcende as circunstâncias imediatas. Somos chamados a confiar que, mesmo quando a presença de Deus não é explicitamente sentida ou vista, Ele está operando nos bastidores, orquestrando eventos para cumprir Seus propósitos. A aplicação prática reside na perseverança na fé e na prática da justiça, mesmo em face da adversidade, sabendo que "o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã" (Salmos 30:5). A história de Hamã e Mordecai é um poderoso incentivo para resistir à tentação de ceder ao desespero e, em vez disso, depositar nossa confiança no Deus que inverte fortunas e exalta os fiéis.
2. A Intercessão Contínua de Ester: Coragem, Humildade e Persistência
Apesar da execução de Hamã e da investidura de Mordecai, a ameaça aos judeus persistia, e Ester compreende a gravidade da situação. O versículo 3 nos mostra sua profunda angústia e sua contínua intercessão: "E Ester falou mais perante o rei, e se lançou a seus pés, e chorou, e lhe pediu que revogasse a maldade de Hamã, o agagita, e o intento que tinha concebido contra os judeus." Esta cena é carregada de simbolismo e emoção. Ester, agora rainha e em uma posição de influência, não se contenta com a vingança pessoal ou com a segurança de sua própria família; sua preocupação é com todo o seu povo. Seu ato de "lançar-se aos pés" do rei é um gesto de profunda humildade e súplica desesperada, uma demonstração de que, apesar de sua posição real, ela se reconhece como uma suplicante diante da autoridade soberana. O choro de Ester não é um sinal de fraqueza, mas de sua profunda identificação com o sofrimento iminente de seu povo, ecoando o lamento dos profetas por Israel.
A persistência de Ester é um exemplo notável de intercessão eficaz. Ela já havia arriscado sua vida para se apresentar ao rei (Ester 5:1-3) e havia exposto a trama de Hamã (Ester 7). Agora, ela arrisca sua posição e talvez até a paciência do rei ao retornar com uma nova súplica, mesmo após a resolução aparente da crise. Sua linguagem é direta e clara: ela pede que o rei "revogasse a maldade de Hamã". A palavra hebraica para "maldade" (רָעָה - ra'ah) carrega a conotação de algo não apenas mau, mas também prejudicial e destrutivo. Ester não está pedindo uma simples correção administrativa, mas a anulação de um decreto que representa uma ameaça existencial. Sua persistência demonstra uma profunda compreensão de que a justiça não é alcançada de uma vez por todas, mas exige vigilância e ação contínuas. Este é um eco da parábola do juiz iníquo em Lucas 18:1-8, onde Jesus ensina sobre a necessidade de orar "sempre e nunca desfalecer", destacando a eficácia da persistência na súplica.
A resposta do rei Assuero, conforme registrado no versículo 4, é um sinal de sua contínua afeição e respeito por Ester, e talvez também um reconhecimento da gravidade da situação: "E o rei estendeu a Ester o cetro de ouro; e Ester se levantou, e se pôs em pé diante do rei." O cetro de ouro, símbolo de sua autoridade e permissão, havia sido estendido a ela anteriormente, concedendo-lhe acesso e proteção. Agora, sua extensão novamente não é apenas um convite, mas um sinal de que o rei está disposto a ouvir e considerar sua nova petição. A atitude de Ester de se levantar e "se pôr em pé diante do rei" demonstra seu respeito pela majestade real, mas também sua determinação e coragem em apresentar seu caso. Ela não se esconde atrás de sua posição, mas se apresenta como uma advogada apaixonada por seu povo, encarnando o papel de uma mediadora entre a realeza persa e a comunidade judaica.
As palavras de Ester nos versículos 5 e 6 são um testemunho de sua sabedoria e amor abnegado: "E disse: Se ao rei parece bem, e se achei graça perante ele, e se a coisa parece reta diante do rei, e se eu sou agradável aos seus olhos, escreva-se que se revoguem as cartas do intento de Hamã, filho de Hamedata, o agagita, as quais ele escreveu para destruir os judeus, que estão em todas as províncias do rei; porque como poderia eu ver o mal que sobrevirá ao meu povo? ou como poderia eu ver a destruição da minha parentela?" Aqui, Ester usa uma linguagem diplomática, apelando à benevolência e à justiça do rei, mas sua motivação final é visceral: ela não pode suportar a ideia de ver seu povo destruído. Esta é uma demonstração de amor e solidariedade profunda, que transcende o interesse próprio. Ela se identifica plenamente com a sorte de seu povo, ecoando o altruísmo de Moisés, que intercedeu por Israel, chegando a pedir que seu nome fosse riscado do livro de Deus se o povo não fosse perdoado (Êxodo 32:32), e de Paulo, que desejou ser anátema por amor aos seus irmãos (Romanos 9:3). Para o cristão, a intercessão de Ester é um modelo de oração: persistente, humilde, corajosa e motivada por um amor genuíno pelo próximo, especialmente por aqueles que sofrem. Somos chamados a interceder pelos que estão em perigo, pelos oprimidos e pelos que não têm voz, confiando que Deus ouve as orações de Seus filhos e pode operar grandes livramentos através delas.
3. O Dilema Legal e a Solução Real: A Sabedoria de Assuero e a Autoridade de Mordecai
O dilema legal enfrentado pelo rei Assuero, e por extensão por Ester e Mordecai, era significativo. O versículo 8, ao instruir Mordecai a "escrevei vós também pelos judeus, como vos parecer bem, em nome do rei, e selai-o com o anel do rei", revela a complexidade da lei persa, que proibia a revogação de um edito real uma vez emitido. Este princípio é explicitamente mencionado em Ester 1:19 e 8:8, e também em Daniel 6:8, 12, 15, onde a irrevogabilidade de um decreto real é um elemento central. A lei persa não era como a lei moderna, que permite a revogação de leis anteriores. Uma vez que um decreto real era selado com o anel do rei, ele se tornava uma parte inalterável do corpo legal do império. Isso representava um obstáculo formidável para a salvação dos judeus, pois o edito de Hamã para aniquilá-los já havia sido promulgado e enviado a todas as províncias.
Diante dessa restrição legal, a sabedoria do rei Assuero, ou talvez a sabedoria inspirada por Deus através de seus conselheiros, encontra uma solução engenhosa e pragmática. Em vez de revogar o édito original – o que seria impossível –, ele autoriza a emissão de um "contra-édito". O versículo 7 já havia estabelecido a base para essa solução, com o rei dizendo: "Eis que dei a Ester a casa de Hamã, e a ele enforcaram por ter estendido a mão contra os judeus." Este versículo serve como uma premissa para a nova ação, justificando a intervenção real em favor dos judeus, que agora são vistos como vítimas de uma trama iníqua. A solução não é a abolição da lei, mas a criação de uma nova lei que, sem anular a anterior, a neutraliza em seus efeitos nefastos. É um exemplo de como a lei pode ser contornada ou reinterpretada para alcançar um resultado justo, mesmo dentro de suas próprias limitações, um princípio que se assemelha à hermenêutica legal em outras culturas antigas.
A autoridade concedida a Mordecai para redigir e selar este novo decreto é crucial. "Escrevei vós também pelos judeus, como vos parecer bem, em nome do rei, e selai-o com o anel do rei; porque o escrito que se escreve em nome do rei e se sela com o anel do rei não se pode revogar" (v. 8). Esta é uma delegação de poder sem precedentes para um judeu na corte persa. Mordecai, que havia sido o objeto da ira de Hamã e o alvo de seu plano genocida, agora possui o anel do rei e a autoridade para emitir um decreto em nome do monarca. Esta é a culminação de sua ascensão e a manifestação da providência divina que o colocou em uma posição estratégica. A frase "como vos parecer bem" (כַּטּוֹב בְּעֵינֵיכֶם - kaṭṭōḇ bəʿênêḵem) confere a Mordecai uma latitude considerável na redação do decreto, permitindo-lhe conceber a melhor estratégia para a proteção dos judeus. Este nível de confiança e autoridade é um testemunho da nova estima em que os judeus são tidos na corte.
A solução encontrada pelo rei Assuero – a emissão de um contra-édito que permite aos judeus se defenderem – é um ato de sabedoria política e uma demonstração da flexibilidade dentro de um sistema legal aparentemente rígido. Em vez de revogar o primeiro decreto, o segundo o complementa, fornecendo uma salvaguarda. Isso é análogo, em um sentido teológico, à relação entre a Lei e a Graça no Antigo e Novo Testamento. A Lei, em sua rigidez, revelava o pecado e a incapacidade do homem de cumpri-la perfeitamente, mas a Graça, através de Cristo, não anula a Lei, mas a cumpre e oferece um caminho para a salvação que a Lei não podia prover (Romanos 3:20-22). Para o cristão contemporâneo, este episódio nos ensina sobre a importância de buscar soluções criativas e justas, mesmo diante de obstáculos aparentemente intransponíveis. Também nos lembra da responsabilidade que acompanha a autoridade e da necessidade de usá-la para o bem, especialmente para proteger os vulneráveis e promover a justiça. A história de Ester 8 é um lembrete de que a justiça divina pode operar através de meios humanos e que a sabedoria, mesmo em contextos seculares, pode ser um instrumento da providência divina.
4. O Conteúdo do Contra-Édito: O Direito à Autodefesa e a Mudança de Status
Os versículos 9 a 14 descrevem em detalhes o conteúdo do contra-édito de Mordecai, que foi redigido com a autoridade do rei e selado com seu anel. Este novo decreto não revoga o edito original de Hamã, mas o neutraliza ao conceder aos judeus o direito de se defenderem. O versículo 11 detalha a permissão: "que o rei concedia aos judeus, em cada cidade, que se ajuntassem e se pusessem em defesa de suas vidas, e destruíssem, matassem e exterminassem todas as forças do povo e província que os apertassem, com crianças e mulheres, e que saqueassem os seus bens." Esta é uma permissão abrangente para autodefesa, que equipara os judeus aos seus agressores, concedendo-lhes os mesmos direitos de retaliação e saque que o édito de Hamã havia concedido aos seus inimigos. A inclusão de "crianças e mulheres" na permissão de "destruir, matar e exterminar" (לְהַשְׁמִיד לַהֲרֹג וּלְאַבֵּד - ləhašmîd lahărōg ûləʾabbēd) é um reflexo da brutalidade da guerra antiga e da totalidade da ameaça que os judeus enfrentavam. Não era uma licença para agressão, mas para uma defesa vigorosa e sem misericórdia contra aqueles que viriam para matá-los.
A mudança de status dos judeus é evidente e radical. De um povo condenado à aniquilação, eles são agora um povo autorizado a se defender, com o apoio e a sanção do império. O decreto não apenas lhes concede o direito de resistir, mas também os capacita a fazê-lo ao permitir que se "ajuntassem", ou seja, organizassem suas próprias defesas. Este é um reconhecimento implícito de que o estado persa não poderia ou não iria protegê-los diretamente de todos os seus inimigos em cada província, mas os equiparia para se protegerem. A data estabelecida para esta autodefesa – "no dia treze do duodécimo mês, que é o mês de Adar" (v. 12), o mesmo dia originalmente designado para a sua destruição – é de uma ironia poderosa. O dia de sua condenação se tornou o dia de sua salvação e triunfo, um testemunho da reversão divina e da transformação do luto em alegria