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365 Graça & Adoração Da Criação ao Apocalipse
🌾 Livro de Rute

Capítulo 2

Texto Bíblico (ACF)

1 E tinha Noemi um parente de seu marido, homem valente e poderoso, da família de Elimeleque; e era o seu nome Boaz.

2 E Rute, a moabita, disse a Noemi: Deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas atrás daquele em cujos olhos eu achar graça. E ela lhe disse: Vai, minha filha.

3 Foi, pois, e chegou, e apanhava espigas no campo após os segadores; e caiu-lhe em sorte uma parte do campo de Boaz, que era da família de Elimeleque.

4 E eis que Boaz veio de Belém, e disse aos segadores: O Senhor seja convosco. E disseram-lhe eles: O Senhor te abençoe.

5 Depois disse Boaz a seu moço, que estava posto sobre os segadores: De quem é esta moça?

6 E respondeu o moço, que estava posto sobre os segadores, e disse: Esta é a moça moabita que voltou com Noemi dos campos de Moabe.

7 Disse-me ela: Deixa-me apanhar as espigas, e ajuntá-las entre as gavelas após os segadores. Assim ela veio, e desde pela manhã está aqui até agora, a não ser um pouco que esteve sentada em casa.

8 Então disse Boaz a Rute: Ouves, filha minha; não vás colher em outro campo, nem tampouco passes daqui; porém aqui te ajuntarás com as minhas moças.

9 Os teus olhos estarão atentos no campo que segarem, e irás após elas; não dei eu ordem aos moços, que não te toquem? Tendo tu sede, vai aos vasos, e bebe do que os moços tirarem.

10 Então ela caiu sobre o seu rosto, e se inclinou à terra; e disse-lhe: Por que achei graça em teus olhos, para que faças caso de mim, sendo eu uma estrangeira?

11 E respondeu Boaz, e disse-lhe: Bem se me contou quanto fizeste à tua sogra, depois da morte de teu marido; e deixaste a teu pai e a tua mãe, e a terra onde nasceste, e vieste para um povo que antes não conhecias.

12 O Senhor retribua o teu feito; e te seja concedido pleno galardão da parte do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar.

13 E disse ela: Ache eu graça em teus olhos, senhor meu, pois me consolaste, e falaste ao coração da tua serva, não sendo eu ainda como uma das tuas servas.

14 E, sendo já hora de comer, disse-lhe Boaz: Achega-te aqui, e come do pão, e molha o teu bocado no vinagre. E ela se assentou ao lado dos segadores, e ele lhe deu do trigo tostado, e comeu, e se fartou, e ainda lhe sobejou.

15 E, levantando-se ela a colher, Boaz deu ordem aos seus moços, dizendo: Até entre as gavelas deixai-a colher, e não a censureis.

16 E deixai cair alguns punhados, e deixai-os ficar, para que os colha, e não a repreendais.

17 E esteve ela apanhando naquele campo até à tarde; e debulhou o que apanhou, e foi quase um efa de cevada.

18 E tomou-o, e veio à cidade; e viu sua sogra o que tinha apanhado; também tirou, e deu-lhe o que sobejara depois de fartar-se.

19 Então lhe disse sua sogra: Onde colheste hoje, e onde trabalhaste? Bendito seja aquele que te acolheu. E relatou à sua sogra com quem tinha trabalhado, e disse: O nome do homem com quem hoje trabalhei é Boaz.

20 Então Noemi disse à sua nora: Bendito seja ele do Senhor, que ainda não tem deixado a sua benevolência nem para com os vivos nem para com os mortos. Disse-lhe mais Noemi: Este homem é nosso parente chegado, e um dentre os nossos remidores.

21 E disse Rute, a moabita: Disse-me ele também: Com os meus moços te ajuntarás, até que acabem toda a sega que tenho.

22 E disse Noemi a Rute, sua nora: Bom é, filha minha, que saias com as suas moças, para que noutro campo não te encontrem.

23 Assim, ajuntou-se com as moças de Boaz, para colher até que a sega das cevadas e dos trigos se acabou; e ficou com a sua sogra.

Contexto Histórico e Geográfico

O capítulo 2 se desenrola nos campos de cevada de Belém, durante a colheita. A lei mosaica continha provisões específicas para o cuidado dos pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros. Uma dessas leis era a da "respiga" (Levítico 19:9-10; Deuteronômio 24:19), que proibia os proprietários de terras de colherem completamente seus campos. Eles deveriam deixar as bordas do campo e os feixes caídos para que os necessitados pudessem recolher seu sustento. Era um sistema de bem-estar social divinamente ordenado, baseado na dignidade do trabalho e na generosidade dos proprietários.

Rute, como viúva e estrangeira, tinha o direito legal de respigar. Sua iniciativa de ir ao campo não é um ato de mendicância, mas de trabalho diligente, exercendo um direito que a Lei de Deus lhe concedia. O texto, no entanto, enfatiza um elemento crucial: a providência. O versículo 3 diz que "caiu-lhe em sorte uma parte do campo de Boaz". A palavra hebraica para "caiu-lhe em sorte" (vayyiqer miqreha) sugere um acaso, uma coincidência. Mas na teologia bíblica, não existe mero acaso. O que parece ser sorte do ponto de vista humano é, na verdade, a mão invisível de Deus orquestrando os eventos para cumprir Seus propósitos redentores.

Dissertação sobre o Capítulo 2

A Graça que Precede o Encontro

O capítulo começa com a introdução de Boaz, descrito como um "homem valente e poderoso" (gibbor chayil), a mesma expressão usada para descrever guerreiros e homens de grande caráter. Ele é um parente da família de Elimeleque, o que o posiciona como um potencial go'el (remidor). A iniciativa de Rute em buscar sustento é um ato de fé e responsabilidade. Ela não espera passivamente por um milagre; ela age com base no que conhece da lei e da bondade de Deus, pedindo permissão a Noemi para ir "apanhar espigas atrás daquele em cujos olhos eu achar graça".

O encontro entre Rute e Boaz é o coração do capítulo. A primeira impressão de Boaz é a de um homem piedoso e justo. Ele saúda seus trabalhadores com uma bênção: "O Senhor seja convosco", e eles respondem: "O Senhor te abençoe". Este é um ambiente de trabalho permeado pelo temor a Deus. Ao notar Rute, ele não a vê como uma intrusa, mas pergunta sobre sua identidade. A resposta do servo revela o caráter exemplar de Rute: ela é a moabita que voltou com Noemi, pediu permissão humildemente e trabalhou incansavelmente desde a manhã.

Sob as Asas do Remidor

A reação de Boaz é extraordinária e vai muito além da simples obrigação legal. Ele oferece a Rute proteção, provisão e pertencimento. Ele a instrui a ficar em seu campo, junto de suas servas, garantindo que nenhum homem a importunará. Oferece-lhe água dos seus próprios vasos, um gesto de hospitalidade generosa. A resposta de Rute é de profunda humildade e surpresa: "Por que achei graça em teus olhos, para que faças caso de mim, sendo eu uma estrangeira?" (v. 10). Ela se vê como uma pária, uma estrangeira sem direitos, e fica maravilhada com a bondade imerecida de Boaz.

A resposta de Boaz no versículo 12 é o centro teológico do capítulo: "O Senhor retribua o teu feito; e te seja concedido pleno galardão da parte do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar". Boaz reconhece o sacrifício de Rute — deixar sua terra e seu povo por lealdade a Noemi e fé no Deus de Israel. A metáfora de se abrigar "sob as asas" de Deus é poderosa, evocando a imagem de uma ave protegendo seus filhotes. É uma imagem de refúgio, segurança e cuidado divino. Ironicamente, Boaz, ao pronunciar esta bênção, torna-se o próprio instrumento através do qual Deus a cumprirá. Ele se torna as "asas" sob as quais Rute encontrará abrigo.

A generosidade de Boaz continua. Ele a convida para comer com seus segadores, compartilhando seu pão e trigo tostado — um ato de comunhão que a integra na comunidade. Ele instrui seus trabalhadores não apenas a permitirem que ela respigue, mas a deliberadamente deixarem cair punhados de espigas para ela. Isso não é mais apenas a lei da respiga; é graça pura, uma provisão abundante e intencional que vai além de qualquer expectativa. Rute volta para casa não apenas com o sustento para um dia, mas com quase um "efa de cevada" (cerca de 22 litros, o suficiente para alimentar duas pessoas por semanas), e com o que sobrou de sua refeição.

A Esperança Renovada de Noemi

O capítulo termina com a reação de Noemi. Ao ver a quantidade de cevada e ouvir o nome de Boaz, a amargura de Noemi começa a se dissipar, dando lugar à esperança. Ela abençoa Boaz, reconhecendo que a "benevolência" (hesed) do Senhor não cessou. E então, ela revela a informação crucial que nem Rute nem o leitor sabiam com certeza: "Este homem é nosso parente chegado, e um dentre os nossos remidores (go'el)". A "sorte" de Rute em cair no campo de Boaz era, na verdade, a providência soberana de Deus guiando-a diretamente ao homem que tinha o direito e, como se vê, o desejo de redimi-las. A esperança, que parecia morta, renasce. O plano de Deus, tecido nas tramas da vida cotidiana, começa a se revelar.

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